Gastrulation in the horse conceptus: an immunohistochemical study (Gastrulação em equinos: Um estudo imunohistoquímico)
Doutora Luísa Maria Leal Mateus, professora auxiliar da Faculdade de Medicina Veterinária da Univerisdade Técnica de Lisboa, e,
Doutor Fernando Jorge da Rocha Pires, professor auxiliar da Universidade dos Açores.
A fase inicial do desenvolvimento embrionário, nomeadamente o período associado à gastrulação, é crucial e caracterizada por uma série de importantes eventos que diferem entre as várias espécies animais. A informação acerca deste período do desenvolvimento no cavalo é escassa.

Durante a gastrulação ocorre uma massiva reorganização celular que transforma o blastocisto numa entidade complexa, na qual os folhetos embrionários (ectoderme, mesoderme e endoderme) são estabelecidos e organizados em locais específicos, de forma a permitirem a sua diferenciação em todos os tecidos do embrião e membranas associadas. O mais interno destes folhetos, a endoderme, irá dar origem ao intestino e outros órgãos internos. O mais externo, a ectoderme, à pele, cérebro, sistema nervoso e outros tecidos externos. O intermédio, a mesoderme, irá dar origem aos músculos e aos sistemas esquelético e circulatório.
Neste trabalho, foi feito um estudo detalhado da formação dos folhetos embrionários e diferenciação no concepto de equino na fase da gastrulação, tendo sido utilizados os seguintes métodos: avaliação macroscópica e análise de cortes histológicos por histologia convencional (hematoxilina-eosina) e imunohistoquímica. Observámos que a gastrulação, no equino, se inicia no Dia 12 (Dia 0 = dia da ovulação) e que, 18 dias após a ovulação, o concepto completou uma série de estadios bem definidos, permitindo o estabelecimento do embrião propriamente dito e membranas associadas. Estes estadios incluem a formação do disco embrionário, formação da linha primitiva, involução de células do epiblasto através da linha primitiva (dando origem à mesoderme e endoderme), neurulação, diferenciação da mesoderme, angiogénese e estabelecimento de um sistema circulatório embrionário eficaz, no qual se identificam as aortas e veias vitelinas preenchidas com células sanguíneas embrionárias.

Através dos estudos de imunohistoquímica, verificámos uma expressão generalizada das citoqueratinas em todas as células da ectoderme com uma demarcação acentuada na junção ectoderme-trofoblasto. A ausência de expressão da vimentina nas primeiras células mesenquimatosas móveis identificadas, permitiu-nos concluir que a vimentina, no cavalo, não pode ser associada, como acontece noutras espécies, com a diferenciação da mesoderme a partir do epiblasto e início da gastrulação. De facto, só no dia 14 após a ovulação é que identificámos células mesenquimatosas marcadas com vimentina. Estas encontravam-se lateralmente à linha primitiva e na porção posterior do embrião. Este padrão de marcação da vimentina sugere diferentes “destinos" das células mesenquimatosas primárias. É também possível que, após movimentos morfogenéticos, estas mesmas células respondam à sua nova localização trocando a expressão de filamentos proteicos. A marcação com α1-fetoproteína, na endoderme primitiva, verificou-se a partir do Dia 10 e intensificou-se nos conceptos mais desenvolvidos. Assim, a endoderme primitiva parece ser o local de síntese desta proteína, tendo em conta o forte e constante padrão de marcação.

Todas estas observações, e quando comparadas com o que acontece nas outras espécies domésticas, sugerem que o padrão de marcação das citoqueratinas, vimentina e α1-fetoproteína nos folhetos embrionários não é uma característica comum ao desenvolvimento embrionário das várias espécies e que existem vários aspectos únicos nas fases iniciais do desenvolvimento do embrião de equino.